Na semana passada, tive o privilégio de participar no Kick-off da 13.ª Edição do Programa de Mentoring da PWN Lisbon, onde a palestra principal foi apresentada por António Pires de Lima, atual Presidente da Comissão Executiva da Brisa, sobre o tema “Paridade de género e o valor para as empresas”.
Perante um público maioritariamente feminino, Pires de Lima explicou o seu desconforto, apesar deste ser um tema sobre o qual é várias vezes convidado a falar. Pai de 5 filhas, foi criado num ambiente familiar conservador para ser um indíviduo autónomo, bem-sucedido, numa condição diferente das mulheres da sua idade, lembrando que a ditadura terminou há apenas 50 anos.
Durante a palestra, demonstrou através de dados como a evolução ao nível da diversidade tem sido assinalável, sobretudo ao longo das últimas décadas. Mas recordou que ainda estamos longe de uma paridade a nível salarial, no acesso a cargos de liderança e na representatividade política. “Homens escolhem homens”, disse. Deu exemplos concretos e recentes da esfera política desta prática e apelou à união entre as mulheres para fazerem diferente.
Saí da palestra com várias ideias a ecoar na cabeça: será que, de facto, se as licenças de maternidade/paternidade fossem idênticas, como em países do Norte da Europa, começaríamos, por fim, a deixar de questionar as mulheres em idade reprodutiva sobre o seu planeamento familiar durante entrevistas de emprego? Mas sobretudo a ideia de que “homens escolhem homens” e o questionar porque (ainda) acontece.
Entretanto, na viagem de metro até casa, continuei a ler “Um Quarto Só Seu”, de Virginia Woolf. Na verdade, o texto é também uma palestra, que Woolf deu em Cambridge, em 1928, sobre mulheres e ficção. A sua tese é de que, para escrever ficção, “uma mulher tem de ter dinheiro e um quarto só seu”. Só assim pode ser autónoma, livre, escrever sem distrações nem preocupações.
Ao longo da análise, em que compara as obras (escassas) de mulheres com o trabalho de homens, analisa o discurso dos homens sobre as mulheres, rebaixando-as e relegando-as para um papel secundário na sociedade. Mas Woolf “cheira” o receio e o medo dos homens. O que os ameaça verdadeiramente?
“Seja como for, quando um assunto é muito controverso — e qualquer questão acerca do sexo é controversa —, não podemos ter a esperança de dizer a verdade. Podemos apenas mostrar como chegámos à nossa opinião, qualquer que ela seja. Podemos apenas dar a quem nos ouve a oportunidade de tirar as suas próprias conclusões enquanto observa as limitações, os preconceitos, as idiossincrasias da palestrante.”
No final, Woolf fala ainda sobre Mussolini e a ideologia fascista que, anos depois, se aliou à ideologia nazi e assolou o mundo com o horror dos campos de concentração, numa guerra mundial que deixou cicatrizes profundas em várias nações. Perante um mundo dividido e polarizado, a história relembra como tudo muda, mas é preciso não desvalorizar o perigo do extremismo.
Quase um século depois, podemos olhar para as palavras da escritora inglesa e admirar a evolução e o progresso, com os nomes de muitas mulheres a figurarem não só nas bibliotecas, mas também nas montras e nos destaques das livrarias.
No entanto, “o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos” ainda está longe de ser universal. Recordamos os países onde a condição da mulher piorou significativamente nos últimos anos, deixando de ter acesso à educação e ao mercado de trabalho, qual escravo na sociedade ateniense da Grécia Antiga.
Dias depois, ouvi o episódio “Sobre metade da Humanidade”, do podcast “Coisa que não Edifica nem Destrói”, com Ricardo Araújo Pereira e Mariana Cabral (Bumba na Fofinha), cuja premissa é um texto de Christopher Hitchens publicado em janeiro de 2007 na “Vanity Fair” com o título “Why Women Aren’t Funny”.
Araújo Pereira explica como, para Hitchens, fazer rir é uma estratégia de sedução aperfeiçoada (e exclusiva) dos homens para conseguirem “acasalar”. Já as mulheres têm outros recursos para seduzir o sexo oposto. Além disso, o riso feminino revelou-se problemático, ao longo da história, como revela um episódio da própria Biblia.
Uma vez mais o tema da ameaça que os homens sentem das mulheres: atualmente, nos Estados Unidos, durante a campanha eleitoral, Donald Trump critica o riso de Kamala Harris. Parafraseando, as mulheres que riem são loucas. Segue-se a conversa animada entre os dois humoristas, RAP e Bumba na Fofinha, com Mariana Cabral a explicar que o humor pode ser uma estratégia de sedução (social), mas não tem propriamente género.
No final de tudo o que li e ouvi, fiquei a pensar em como o papel da mulher, autónoma e capaz de assumir qualquer papel que deseje na sociedade, é de facto recente, em especial no nosso país, onde a ditadura limitou a liberdade até 1974. Como é natural, vê-se já uma diferença significativa nas mulheres de 20 ou 30 anos, cujas mães tiveram acesso, mais novas, à liberdade.
Aos poucos, a sociedade evolui e muda, mas não nos podemos iludir. Ainda não existe paridade e é preciso mais mulheres em lugares de topo, que escolham mulheres como elas para as oportunidades que surjam. Não por serem mulheres, mas por terem tanto ou mais mérito que os homens.

