Um feedback que recebo com frequência é: “não sei como consegues ter tempo para fazer tanta coisa”. E, dada a minha natureza introspectiva e reflexiva, fico a pensar nisso.
Será que estou a “dispersar-me” ao fazer demasiadas coisas em simultâneo? A resposta, para mim, é fácil: não estou, porque as escolhas que faço são cada vez mais intencionais. Não as deixo ao acaso e, na medida do possível, não “permito” que sejam as condições externas a determinar o que faço.
Por vezes, tenho de negociar comigo própria: não podes planear 1 workshop e 1 sessão de auto-cuidado num dia em que tenho uma reunião na escola do meu filho. Tudo isto é importante para mim – aprender, ter tempo para mim e participar ativamente no desenvolvimento do meu filho. O que é prioritário? Aquilo que só pode ser feito naquele dia. E lá reorganizo a minha agenda.
Segunda reflexão: o que é que me motiva a fazer tantas coisas, apesar de um sem fim de tarefas, projetos e reuniões no trabalho (vulgo, “rolo compressor”)? A energia, a satisfação e o bem-estar que retiro dessas atividades paralelas. Não são elas que me esgotam e cansam. O dia-a-dia rotineiro, sim.
Por isso, cada vez que dedico 1 hora a uma sessão de mentoria – seja para ouvir um mentee ou eu própria me colocar nesse papel – ganho duas ou mais horas de energia que posso utilizar para ter tempo de qualidade com a minha família ou ser mais produtiva naquela tarefa de trabalho que é necessário terminar ainda hoje. Parece estranho? Talvez pareça, mas se tens dúvidas, experimenta.
No início de 2024, assisti a um sprint na Section que recomendo e, literalmente, mudou a minha vida. The Productivity & Performance Sprint com Sahar Yousef & Lucas Miller deu-me ferramentas e uma framework para aplicar no meu dia-a-dia que fez com que a maioria dos meus dias não terminem comigo a sentir-me esgotada, sem energia, incapaz de aproveitar o final do dia ou o fim de semana.
É claro que tenho dias difíceis, em que nada parece correr bem e que estou cansada. No entanto, aprendi que a melhor forma de lidar com esta situação é gerir não apenas o meu tempo, mas sobretudo a minha energia. Ontem, a minha mentora partilhou comigo o artigo da Harvard Business Review que explica em que consiste: Manage Your Energy, Not Your Time.
O artigo explica que o tempo é um recurso finito, mas a energia é renovável. Não soa familiar? Podemos comparar o tempo às matérias-primas que gradualmente estamos a consumir no planeta, enquanto aprendemos a tirar partido do sol, do vento e das marés, fonte de energia inesgotável (isto é, se cuidarmos de todo o ecossistema).
Tendo em conta a aplicação prática numa organização, os autores partilham quais as 4 áreas que é necessário fortalecer:
- O corpo (energia física) – dormir bem, comer bem e fazer exercício. Nesta parte, o meu aha moment foram as pausas frequentes. Parar entre blocos de tarefas ou reuniões, levantar-me, beber água, ir até à varanda (quando estou em casa) ou conversar 5 minutos com uma colega (quando estou no escritório) fazem toda a diferença.
- As emoções (qualidade da energia) – o stress e outras emoções negativas cansam demasiado. Lembro-me de uma situação há muitos anos em que “senti” injustiça no trabalho. O sentimento de frustração e tristeza começou a pesar fisicamente no meu corpo. Na altura, a ferramenta que encontrei (e funcionou para mim) foi o mindfulness. Aprendi a reconhecer os pensamentos como histórias que contamos a nós próprios (e não verdades), a identificar no corpo a tensão que podem causar e a libertar-me dessas emoções negativas. No artigo, gosto particularmente do exemplo em que um executivo substitui um mau hábito (fumar) por uma prática saudável (respirar fundo).
- A mente (foco da energia) – vivemos numa era de constantes interrupções, onde estamos sempre ligados. Isto tem consequências muito negativas para a nossa capacidade de foco. Aqui o que fez uma diferença gigante no meu dia foi parar de responder a todas as mensagens que tinha no Teams assim que as recebia. Como team leader, “sentia-me obrigada” a estar sempre a responder aos membros da minha equipa, a outros team leaders ou aos gestores de projeto. Decidi só fazê-lo de forma esporádica entre tarefas ou reuniões e em 2 blocos dedicados às least important tasks, ao final da manhã e ao final do dia. Informei toda a gente desta mudança e todos sobrevivemos. Num ano, apenas 1 gestor de projeto teve de ligar-me porque precisava de confirmar 1 informação com urgência.
- O espírito humano (energia do sentido e do propósito) – o que nos diferencia das máquinas é a nossa capacidade de sonhar, imaginar e estabelecer relações com quem nos rodeia. Se o nosso dia-a-dia não está alinhado com aquilo que faz sentido para nós, não encontramos um propósito nas tarefas rotineiras, é momento de parar e pensar, agarrar numa folha de papel e escrever sobre aquilo pelo qual queremos ser lembrados. No sprint da Section, fizemos o deathbed exercise. De que adianta dedicar horas e horas ao trabalho se, no leito da morte, queremos ser lembrados como uma boa pessoa, que esteve presente nos momentos mais importantes da vida das pessoas que amou? São estas as prioridades que devem orientar o nosso dia-a-dia e, se queremos chegar a uma idade avançada, regressamos ao ponto de partida desta análise (cuidar do nosso corpo).
Acredito que somos mais fortes quando aprendemos a cuidar, a nutrir e a alimentar estas 4 esferas, de forma consciente e intencional. Num mundo cada vez mais polarizado, que se inflama através de posts em redes sociais, em vez de debates e conversas cara a cara, é importante parar, pensar e questionar: como é que eu quero viver a minha vida? Que impacto gostaria de ter na vida das pessoas que me rodeiam, sejam amigos, colegas de trabalho ou familiares?
Em vez de recearmos o impacto da inteligência artificial, reforcemos aquilo que nos torna humanos.


