Pensar (em dia de eleições)


Hoje foi dia de eleições em Portugal. As urnas fecharam pelas 19h, e em breve, vão começar a ser anunciados os primeiros resultados. Aguardaremos, pacientemente, por saber o que mudou nas câmaras e freguesias do país. Estamos apreensivos com a mudança, há receios de que possa trazer dissabores. Aguardemos.

Mas este post não é sobre política. É sobre pensamento crítico e o livro de joana rita sousa: “Como desenvolver o pensamento crítico das crianças”. Comprei o meu exemplar há uns meses numa livraria no Porto porque conheço (e acompanho) o trabalho da joana há vários anos e admiro o seu percurso, nesta área tão específica e preciosa que é a Filosofia para (e com) crianças e jovens.

Nos dias que correm, questiono-me muito sobre esta temática do pensamento crítico e considero fundamental nunca parar de treinar a capacidade de fazer perguntas (e são tantas as vezes que fico frustrada por não fazer mais perguntas). Por isso, ainda que esteja muito interessada em aprender a estimular esta capacidade no meu filho, estou igualmente empenhada em alimentar em mim esta arte de fazer perguntas.

Algumas notas sobre o que li:

  • O feedback como ferramenta de melhoria contínua

Por vezes, noto uma certa resistência ao feedback. Mesmo quando é positivo, para algumas pessoas, é embaraçoso ou constrangedor. Mas o mais importante mesmo é perceber que o feedback negativo é uma oportunidade para aprender. Como explica a joana, “Há sempre espaço para melhorar, para afinar, para fazer diferente, para experimentar.” Nem tudo tem de estar necessariamente certo ou errado, mas parece que ficámos agarrados à “avaliação do professor”.

  • A ignorância como estado de tomada de consciência do que não sabemos

“Só sei que nada sei”, um dito atribuído ao Sócrates de Platão (mas sem menção nos textos gregos antigos), descreve este paradoxo que é aceitarmos o que não sabemos como algo natural, dada a complexidade do mundo. “Não há qualquer problema em sentir-se ignorante”, esclarece joana.

  • O pensamento crítico como uma competência para o futuro

Antes de avançar no capítulo sobre a definição do pensamento crítico, escrevi que, para mim, trata-se de questionar, não aceitar a primeira resposta, tentar saber mais, ler várias fontes. Depois, mergulhei nas propostas da joana de definições e entendimentos do que é o pensamento crítico e percebi o quanto a minha resposta foi básica. Recomendo a leitura a quem quiser aprofundar.

  • Ler a opinião das pessoas que pensam diferente

Sabemos que, nas redes sociais, os algoritmos condicionam os conteúdos que vemos. Se hesitamos alguns segundos para ver um vídeo de um acidente no Instagram, é quase certo que vamos ver vídeos semelhantes no feed. Gosto da sugestão da joana porque, se tivermos curiosidade, podemos questionar a nossa própria opinião e quem sabe até mudá-la. Mudar de opinião parece ser algo tão difícil hoje em dia, quando na verdade é um processo natural de descoberta e aprendizagem.

  • Como construir e avaliar argumentos

Andamos sempre com pressa. Quem é que se dá ao trabalho de parar para avaliar os argumentos? Voltando ao exemplo da política, é precisamente nessas ocasiões que deveríamos treinar o nosso processo de avaliação do que é dito nos debates entre candidatos.

  • A escuta enquanto tarefa inacabada

Escutar também exige empenho e tempo. Destaco outra sugestão da joana para praticar a arte da escuta: o clube de leitura em voz alta. Só é possível argumentar de forma coerente e consciente, se conseguirmos ouvir o que o nosso interlocutor diz e interpretá-lo corretamente. Tenho ideia de que é uma capacidade rara, que se vê pouco nas notícias, nos locais de trabalho e até no ambiente familiar

  • O diálogo como ferramenta para aprendar a discordar

Fugimos tantas vezes à discórdia, quando uma boa discussão intelectual pode ensinar-nos tanto. Estarmos disponíveis para ouvir os argumentos do outro e rever a nossa posição é uma oportunidade para criar algo novo, único, em conjunto com outra pessoa. Se recusarmos o diálogo e a discórdia, estamos a recusar um mundo de possibilidades.

  • Detectar o “achismo”

Quantas vezes não acontece algo e, de repente, parece que toda a gente tem opinião sobre o assunto, apenas por ter lido uns títulos e ouvido alguns comentários? Questionemo-nos sobre isso. Se queremos ter um diálogo construtivo, que nos aproxima da verdade, é preciso aceitar que “aquilo que eu acho” não vale sempre. Porque é que acha isso?

Em jeito de conclusão, vejo no pensamento crítico um antídoto para as redes sociais e até para os riscos da utilização da inteligência artificial. Na verdade, podemos usar estas plataformas para, precisamente, treinar o nosso pensamento crítico. Se conseguirmos usar esta ferramenta no nosso dia a dia, nos diálogos com miúdos e graúdos, talvez seja possível contrariar algumas das tendências negativas que vemos surgir na sociedade e até na esfera geopolítica.

joana rita sousa: "Como desenvolver o pensamento crítico das crianças".

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