Mapas para conhecer o mundo (e nós próprios)


Há livros que nos ajudam a compreender melhor os outros. E há livros que nos ajudam a compreender melhor a nós próprios.

Recentemente li dois que fizeram exatamente isso.

O primeiro foi Uma Americana, um Alemão e um Chinês entram numa Empresa, de Erin Meyer.

Sempre me interessaram as diferenças culturais, mas o que mais gostei neste livro foi a forma como a autora transforma conceitos complexos em situações concretas do dia a dia profissional. Muitas das histórias que partilha são exemplos de mal-entendidos que acontecem não por falta de competência ou boa vontade, mas porque cada pessoa está a interpretar a realidade através do seu próprio mapa cultural.

Uma das ideias que mais me marcou foi a distinção entre culturas de alto e baixo contexto. Em algumas culturas, a comunicação é direta e explícita. Noutras, grande parte da mensagem está implícita e depende do contexto. O problema é que raramente nos apercebemos de que estamos a falar línguas culturais diferentes.

Gostei particularmente do “guia de tradução” entre britânicos e neerlandeses. Fez-me pensar como seria útil existir algo semelhante para muitas outras combinações de nacionalidades com quem trabalhamos diariamente.

Outro conceito interessante é o dos diferentes estilos de persuasão. Nem todas as pessoas são convencidas da mesma forma. Erin Meyer cita um diretor alemão que explica:

“Na Alemanha, procuramos entender o conceito teórico antes de o adaptarmos à situação prática. Para compreendermos algo, analisamos, antes de mais, todos os dados conceptuais, antes de chegarmos a uma conclusão.”

Quando pensamos em comunicação, marketing ou liderança, esta ideia parece particularmente relevante. Para convencer alguém, talvez seja preciso começar por compreender primeiro como essa pessoa pensa.

O segundo livro foi A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown.

Se Erin Meyer nos ajuda a navegar as diferenças entre pessoas, Brené Brown leva-nos para uma viagem mais difícil: a relação que temos connosco próprios.

O conceito que mais me ficou foi o da vergonha. A autora define-a como a crença profundamente dolorosa de que somos defeituosos e, por isso, não merecedores de amor e pertença. É uma definição desconfortável precisamente porque reconhecemos essa voz em muitos momentos da nossa vida.

Brown chama-lhe o “gremlin”. Aquela cassete interna que nos diz que não somos suficientemente bons, inteligentes, competentes ou capazes.

Ao longo do livro, percebe-se que muitas das estratégias que usamos para nos protegermos acabam por nos afastar daquilo que mais procuramos. O perfeccionismo. A necessidade de controlo. O receio de falhar. A tendência para agoirar a alegria quando as coisas estão a correr bem.

A autora propõe algo aparentemente simples, mas difícil de praticar: aceitar a vulnerabilidade.

“A nossa disponibilidade para assumirmos os riscos e nos comprometermos com a nossa vulnerabilidade determina a dimensão da nossa coragem e a clareza do nosso propósito.”

E talvez seja esta a ideia que mais liga os dois livros.

As relações humanas são inevitavelmente imperfeitas. Seja entre pessoas de culturas diferentes, seja dentro da nossa própria cabeça. Haverá sempre ruído, interpretações erradas, inseguranças e momentos de exposição.

Mas talvez a solução não esteja em eliminar essas diferenças ou vulnerabilidades.

Talvez esteja em desenvolver mais curiosidade pelos outros e mais compaixão por nós próprios.

Porque no final, como escreve Brené Brown, estamos aqui para criar vínculos com as pessoas.

E talvez compreender melhor os mapas dos outros e os nossos próprios mapas internos seja uma boa forma de começar.


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